
O deserto do Atacama, no norte do Chile, ganhou tons de violeta, branco, amarelo e vermelho após as fortes chuvas do inverno de 2026. Em uma das regiões mais secas do planeta, a água fez brotar flores em áreas que passam longos períodos sem vegetação aparente.
Conhecido como “Desierto Florido”, o fenômeno envolve cerca de 200 espécies de plantas nativas. Segundo a Corporação Nacional Florestal do Chile (Conaf), a floração deve atingir seu auge em outubro, quando poderá ocupar aproximadamente 15 mil hectares. Algumas espécies ainda podem permanecer floridas até a segunda metade de novembro.
Como o El Niño transforma o deserto mais seco do mundo em um jardim gigante de flores?
A transformação começa sob a superfície. Sementes, bulbos e outras estruturas vegetais conseguem permanecer em estado de dormência durante os períodos secos. Quando a chuva alcança o solo em quantidade suficiente, elas voltam a crescer e dão origem a novas plantas.
Em 2026, as precipitações excepcionais do inverno austral favoreceram esse processo. Em alguns pontos da região, o volume de chuva ultrapassou 180 milímetros. César Pizarro, responsável pela conservação da biodiversidade na Conaf do Atacama, disse à AFP que foram registrados “volumes muito altos que nunca tinham sido registrados”.
O El Niño contribuiu para as condições climáticas associadas às chuvas intensas no norte chileno. No entanto, o episódio meteorológico também provocou consequências graves. Entre 16 e 22 de julho, as tempestades deixaram 13 mortos e cerca de 4 mil moradias destruídas ou com danos graves, segundo as autoridades citadas pela AFP.
Pizarro destacou o contraste provocado pelo fenômeno climático. “Embora haja uma grande preocupação com os impactos que está provocando em muitos lugares, também gera vida ou ativa a vida”, afirmou à agência.
Flores violetas e brancas cobrem áreas do Chile
Entre as espécies que aparecem durante o “Desierto Florido” estão os suspiros, com pétalas brancas, e as patas de guanaco, conhecidas pelas flores violetas. Outras plantas produzem flores amarelas, vermelhas e alaranjadas, criando manchas coloridas entre a areia, as pedras e as encostas.
A vegetação não se distribui de maneira uniforme. A localização e a intensidade da floração dependem das condições de cada trecho, incluindo a quantidade de água que chega ao solo. Assim, áreas cobertas por flores podem ficar próximas de outras que continuam praticamente secas.
A mudança na paisagem também favorece a atividade de animais e outros organismos. Abelhas visitam as flores e participam da polinização. Besouros se alimentam de restos vegetais e contribuem para devolver nutrientes ao solo, enquanto insetos, caracóis, aves, répteis e mamíferos integram o ecossistema.
Para Pizarro, o fenômeno é “mais que flores”. O responsável pela conservação da biodiversidade afirma que a extensão territorial e a variedade de espécies encontradas no Atacama fazem parte do patrimônio natural chileno.
Onde ver o deserto florido no Atacama?
A floração pode ser observada em diferentes áreas da região, incluindo trechos próximos a Chañaral, Caldera, Copiapó, Vallenar, Freirina e Huasco. Entre os pontos conhecidos para acompanhar o fenômeno estão o Parque Nacional Llanos de Challe e o Parque Nacional Desierto Florido.
O cenário muda de um ano para outro, conforme a distribuição das chuvas. Em 2026, as primeiras florações começaram a aparecer na segunda metade de agosto, antes de se espalharem por áreas maiores em setembro. A previsão da Conaf aponta outubro como o período de maior diversidade e abundância de flores.
A temporada pode se estender até novembro, embora a duração varie conforme a espécie e as condições locais. Por isso, quem pretende visitar o deserto deve consultar as orientações das autoridades e verificar quais áreas estão acessíveis.
Como visitar sem danificar as flores?
A paisagem incomum atrai turistas que param ao longo das estradas para fotografar as flores. O aumento da visitação, porém, exige cuidados com plantas que precisam completar seu ciclo para produzir sementes e favorecer novas florações.
A Conaf orienta os visitantes a permanecer nas rotas e nos caminhos demarcados, estacionar apenas em locais permitidos e evitar pisar ou retirar flores. Também recomenda não coletar sementes ou bulbos e não levar animais de estimação para as áreas protegidas, devido ao risco de interferência no ambiente e de transmissão de doenças à fauna silvestre.
Esses cuidados ajudam a preservar a vegetação e os animais que dependem dela. As flores podem desaparecer com a redução da umidade, mas parte das estruturas vegetais permanece sob o solo, onde poderá voltar a germinar quando as condições forem favoráveis.
Fonte: diariodolitoral. com. br