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Estudo da década de 1960 previu que humanidade acabaria daqui exatamente um mês

Artigo projetou um crescimento populacional sem limites e transformou uma equação matemática em um dos cenários apocalípticos mais
Portal Biss
15 de outubro de 2026 às 15:19hs
Estudo da década de 1960 previu que humanidade acabaria daqui exatamente um mês
Em 13 de novembro de 2026, a humanidade deverá viver um dia como qualquer outro. A data, porém, tem um significado peculiar para a história da ciência: em 1960, pesquisadores projetaram que a população mundial se aproximaria do limite máximo nesse exato dia, provocando a própria aniquilação. A previsão não se concretizou, mas suas equações acompanharam o crescimento demográfico com surpreendente precisão durante décadas, antes de começarem a divergir da realidade.

Publicado em 4 de novembro de 1960, na revista Science, o artigo foi escrito por Heinz von Foerster, físico e especialista em cibernética, em parceria com Patricia Mora e Lawrence Amiot, dois de seus alunos à época. A conclusão mais provocativa do trabalho era que a população cresceria tão rapidamente que não haveria espaço para todos. “Nossos descendentes não morrerão de fome; serão esmagados até a morte”, escreveram os pesquisadores.

Como surgiu a previsão

Na metade do século 20, o crescimento acelerado da população mundial alimentava o temor de que a produção de alimentos e a disponibilidade de recursos naturais não fossem suficientes para atender à demanda. Nesse contexto, von Foerster e seus colegas levantaram a hipótese de que a capacidade humana de cooperar e resolver problemas coletivamente poderia favorecer uma expansão demográfica ainda mais rápida do que a observada em outras espécies.

Para sustentar o argumento, os pesquisadores reuniram 24 estimativas da população mundial referentes aos dois milênios anteriores. Com base nesses registros, desenvolveram um modelo matemático de crescimento hiperbólico, no qual o ritmo de aumento da população se acelera ao longo do tempo.

Diferentemente de um crescimento exponencial, em que uma quantidade aumenta proporcionalmente ao seu tamanho, o crescimento hiperbólico pode acelerar ainda mais intensamente. Ao projetar essa curva para o futuro, os autores calcularam que ela se aproximaria do infinito em 13 de novembro de 2026.

Esse resultado não significava que a população realmente pudesse se tornar infinita. Tratava-se de um limite matemático decorrente da suposição de que o padrão observado no passado continuaria indefinidamente. A partir dele, os pesquisadores concluíram que seria necessário reduzir pela metade a taxa global de natalidade para evitar o cenário extremo.

Quando os números pareciam confirmar a previsão

O artigo causou repercussão imediata. Foi discutido por veículos como a revista Time e jornal The New York Times, inspirou tirinhas de humor e entrou em debates sobre demografia, ecologia e produção de alimentos. Entre as décadas de 1960 e 1980, suas equações chegaram a ser citadas em livros didáticos e discussões políticas, muitas vezes sem ressalvas.

Parte dessa notoriedade se devia ao desempenho inicial do modelo. Segundo o economista Javier Birchenall, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, as projeções de crescimento hiperbólico superaram, em determinados períodos, as estimativas demográficas convencionais, que haviam subestimado o crescimento populacional nas décadas de 1960 e 1970. A análise foi publicada na semana passada, também na revista Science.

De acordo com o autor, o cenário começou a mudar por volta de 1993, quando a população mundial passou a crescer abaixo do ritmo previsto pela equação. A desaceleração da fecundidade — isto é, a redução do número médio de filhos por mulher — contribuiu para afastar a realidade da curva projetada.

O fenômeno também alterou o sentido das preocupações demográficas. Se, no passado, o principal receio era uma explosão populacional, hoje muitos países enfrentam desafios associados ao envelhecimento da população e à queda no número de nascimentos.

Projetar o futuro a partir do passado

Para Birchenall, o problema central não estava necessariamente nos cálculos, mas na hipótese de que as características demográficas de uma época seriam permanentes. O modelo transformou uma tendência histórica em uma regra para o futuro, sem considerar suficientemente as mudanças que poderiam alterar a trajetória da população.

O economista resume esse risco com um exemplo hipotético: “Um observador em 200 a. C. , extrapolando as tendências neolíticas, teria superestimado enormemente o crescimento populacional futuro, com a população alcançando seu tamanho atual por volta do ano 1000”.

A comparação evidencia uma limitação importante das projeções: uma equação pode descrever bem os dados disponíveis e, ainda assim, falhar quando as condições que sustentavam aquela tendência deixam de existir.

No caso da população mundial, transformações sociais e econômicas, mudanças nos padrões familiares e o acesso à educação e aos métodos contraceptivos contribuíram para a queda da fecundidade em diversas regiões. A desaceleração, contudo, não aconteceu de maneira uniforme, destaca o portal Nautilus. Países e regiões apresentam ritmos e desafios demográficos distintos.

O que os dados atuais mostram

Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo a série do Banco Mundial, baseada em dados demográficos das Nações Unidas, a taxa de fecundidade total no mundo passou de aproximadamente 4, 7 filhos por mulher em 1960 para 2, 2 em 2024. O indicador estima quantos filhos uma mulher teria ao longo da vida caso as taxas de fecundidade por idade daquele ano permanecessem constantes. Ele não deve ser confundido com a taxa bruta de natalidade, que mede o número de nascimentos em relação à população total.

As projeções das Nações Unidas também estão longe do cenário imaginado em 1960. De acordo com a revisão World Population Prospects 2024, a população mundial, estimada em 8, 2 bilhões de pessoas naquele ano, deverá atingir um pico de aproximadamente 10, 3 bilhões em meados da década de 2080. Depois disso, a previsão é de uma redução gradual, para cerca de 10, 2 bilhões em 2100.

Essas estimativas não eliminam os desafios relacionados à distribuição de alimentos, à pressão sobre os recursos naturais ou ao envelhecimento populacional. Mostram, porém, que o crescimento demográfico segue uma trajetória muito mais complexa do que aquela representada pela curva de von Foerster e seus colegas.

Uma lição sobre ciência e espetáculo

A história tem ainda um componente de ironia: 13 de novembro é o aniversário de von Foerster, que, em determinada fase da vida, também se dedicou à mágica de palco. A escolha da data e o tom provocativo do artigo reforçaram o caráter teatral da previsão, embora o trabalho estivesse fundamentado em dados e cálculos matemáticos.

Para o historiador Alan MacEachern, a combinação entre uma argumentação científica consistente e uma apresentação extraordinária foi justamente o que manteve o artigo relevante. “Chamar a atenção do mundo para um assunto sério por meio do absurdo é um bom truque”, escreve, em artigo no The Conversation.

O episódio não demonstra que a matemática seja incapaz de antecipar tendências, mas que nenhuma projeção está livre das hipóteses sobre as quais foi construída. Quando essas premissas são tratadas como verdades permanentes, até cálculos sofisticados podem produzir conclusões enganosas.

Fonte: revistagalileu. com. br

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