
O fenômeno El Niño e as chuvas intensas registradas durante o inverno austral podem levar o deserto do Atacama, no norte do Chile, a registrar uma das maiores florações de sua história. Em uma das regiões mais áridas do planeta, milhões de sementes e bulbos que permanecem sob o solo aguardam a chegada da água para germinar e transformar a paisagem em um mosaico de cores.
Segundo a Corporação Nacional Florestal do Chile (Conaf), o chamado deserto florido deve atingir seu máximo esplendor neste mês, com uma extensão estimada de 15 mil hectares. A dimensão prevista coloca o fenômeno entre os mais expressivos já registrados na região.
As chuvas deste inverno ultrapassaram 180 milímetros em alguns pontos, volumes considerados inéditos, segundo César Pizarro Gacitúa, chefe da seção de conservação da biodiversidade da Conaf no Atacama. A água penetrou mais profundamente na areia e favoreceu a germinação de espécies que permanecem dormentes durante boa parte do ano.
Entre elas estão os suspiros brancos e as patas de guanaco, flores que cobrem trechos do deserto com tons claros e violetas. A transformação da paisagem atrai turistas, que param os veículos à beira das estradas para fotografar a vegetação. Em dias favoráveis, o cenário inclui arco-íris e o vermelho intenso do pôr do sol.
“O fenômeno El Niño deste ano, embora haja uma grande preocupação (. ) com os impactos que está provocando em muitos lugares, também gera vida ou ativa a vida”, afirmou Pizarro à agência France-Presse (AFP).
Chuvas também provocaram mortes e destruição
As precipitações que favoreceram a floração, no entanto, vieram acompanhadas de temporais com consequências graves. Segundo Pizarro, uma intensa evaporação de água no Pacífico, diante da costa do Peru, contribuiu para as chuvas torrenciais registradas principalmente no norte do Chile entre 16 e 22 de julho.
Os temporais deixaram 13 mortos e cerca de 4 mil moradias destruídas ou com danos graves, segundo as autoridades chilenas.
O El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre, em geral, a cada dois a sete anos. Ele se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais nas regiões central e leste do Pacífico equatorial, o que altera os padrões de circulação atmosférica e influencia a distribuição das chuvas e as temperaturas em diferentes partes do mundo.
Ecossistema além das flores
O deserto florido vai além do espetáculo visual. A sobrevivência das plantas depende de um ecossistema que inclui insetos, caracóis, aves, répteis e mamíferos. As abelhas contribuem para a polinização, enquanto os besouros se alimentam de restos vegetais e ajudam a devolver nutrientes ao solo por meio de seus excrementos, enriquecidos com nitrogênio e fósforo. Esses elementos contribuem para a manutenção da vegetação e para os ciclos de floração seguintes.
Com a expectativa de receber milhares de turistas, a Conaf também alerta para a necessidade de preservar a área. A recomendação é evitar pisar nas plantas, respeitar as rotas estabelecidas e não levar animais domésticos, que podem transmitir doenças à fauna local.
“Para nosso país, o deserto florido é um orgulho, é parte do nosso patrimônio”, afirmou Pizarro. Segundo ele, embora outros desertos também floresçam após as chuvas, a extensão territorial e a diversidade de espécies encontradas no Atacama tornam o fenômeno singular.
Fonte: otempo. com. br