Redes sociais

home
Jornalismo

Árvore exótica indiana domina as ruas de cidades do semiárido paraibano

Estudo inédito mapeou 1. 381 árvores ao longo de vias públicas em dez municípios do semiárido paraibano e revelou que quase 80% dos
Portal Biss
14 de outubro de 2026 às 08:56hs
Árvore exótica indiana domina as ruas de cidades do semiárido paraibano
A espécie exótica Azadirachta indica (nim indiano) representou sozinha mais da metade de todos os indivíduos analisados, gerando uma hiperdominância que ameaça a biota local.

Pesquisadores alertam que o avanço de árvores exóticas é uma escolha do poder público e apontam riscos de toxicidade, perda de polinizadores e danos à infraestrutura urbana.

Um estudo recentemente publicado pela Biotropica mapeou a vegetação presente nas ruas em 10 municípios inseridos no clima semiárido da Paraíba e revelou um cenário preocupante na gestão da arborização regional: a presença elevada de plantas exóticas invasoras e baixo número de representantes da flora nativa da Caatinga. As cidades que integraram o estudo foram Alagoa Grande, Cajazeiras, Campina Grande, Esperança, Guarabira, Patos, Pombal, Queimadas, São Bento e Sousa.

A pesquisa avaliou a riqueza, a composição e a distribuição de árvores de rua por meio de amostragem, com amostras coletadas nos locais, e de classificação por satélite. Ao todo, os pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) catalogaram 1. 381 indivíduos pertencentes a 69 espécies. Os resultados indicam que aproximadamente 80% de todas as árvores registradas e 52 espécies identificadas não são nativas. O levantamento ainda revela que 60% do total dos indivíduos pertenciam a espécies classificadas como exóticas invasoras.

O nim indiano (Azadirachta indica) respondeu isoladamente por 700 das 1. 381 árvores contabilizadas — o equivalente a mais da metade de toda a amostragem da pesquisa.

Estudos sobre arborização de ruas costumam se concentrar em capitais e metrópoles, deixando lacunas de amostragem em áreas do interior do estado, segundo os pesquisadores. Ao olhar para cidades de pequeno e médio porte do Semiárido, os cientistas identificaram que metade dos municípios analisados pode ser classificada como “antagônica à biodiversidade”, dada a escassez de espécies locais e a predominância da vegetação exótica.

O avanço do nim e a ameaça à fauna local

De acordo com os pesquisadores, a introdução do nim no Brasil ocorreu na década de 1980, com incentivo do poder público, em parte pela sua ação como defensivo agrícola natural. Por possuir compostos químicos com propriedades inseticidas em sua composição — como a azadiractina —, a espécie atua sobre insetos polinizadores locais e afeta a cadeia alimentar de aves e outros pequenos animais adaptados à Caatinga.

“Estudos mostram que [o nim] é tóxico para insetos e para abelhas. Então, você, [ao plantar], diminui a fauna de polinizadores que está no meio da cidade. Porque ela tem compostos voláteis que são inseticidas, pode fazer o processo de inibição do desenvolvimento larval de diversos insetos, principalmente abelhas, por exemplo”, explica o pesquisador Arleu Barbosa Viana Junior, biólogo e doutor em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em entrevista concedida por telefone à Mongabay.

Durante o levantamento nas ruas, os pesquisadores observaram impactos diretos na infraestrutura urbana. Segundo os autores, enquanto as espécies nativas da Caatinga estão naturalmente adaptadas ao solo seco da região sem causar grandes interferências nas estruturas ao redor, muitas das exóticas invasoras provocam estragos no pavimento e nas calçadas devido à forma como suas raízes se desenvolvem.

Também em entrevista por telefone à Mongabay, uma das autoras do estudo, Rafaella Santana, doutora em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), destacou como o crescimento dessas plantas afeta o cotidiano das cidades e os cofres públicos:”[O nim] é uma planta tão — eu vou usar o termo — agressiva, nessa percepção, que destrói calçadas, piso, contrapiso. Eu ouvi um relato de uma senhora que chegou a ver a raiz sair no sanitário da casa dela”.

Durante a coleta de amostras nas cidades da Paraíba, o grupo de pesquisa observou uma sensibilidade dos moradores em relação ao papel das plantas nativas da Caatinga no ambiente urbano.

“Eles têm uma consciência ambiental; eles podem não entender especificamente qual é a espécie e o benefício ecológico, mas eles têm uma percepção de que aquela planta tem um melhor benefício”, comentam os pesquisadores, exemplificando que ouviram relatos de pessoas dizendo que no nim “não chega bicho nenhum; a gente tem a sombra, mas não escuta um passarinho”. Esses relatos ganham respaldo nas análises biológicas da pesquisa. No caso dos insetos, o grupo de formigas mostrou-se altamente sensível à substituição de espécies nativas por árvores exóticas. “As espécies de árvores nativas abrangem uma maior riqueza de formigas. Então, não basta só ter árvores, tem que ter uma comunidade de espécies nativas associada”, relata a pesquisadora Rafaella Santana.

Metodologia e validação científica

O estudo sobre a vegetação das ruas nasceu a partir de um projeto amplo focado em entender os insetos associados à arborização urbana. Para viabilizar a pesquisa com o orçamento disponível, a equipe delimitou o estudo a 10 cidades do estado.

Arleu explicou que a amostragem se concentrou em árvores de calçadas e canteiros centrais. Em cada município, os cientistas marcaram quatro pontos de coleta ao longo de trechos de 300 metros lineares.

Ele acrescentou que a amostragem se concentrou em árvores de calçadas e canteiros centrais de avenidas, descartando vegetações em quintais privados ou parques urbanos. Para alcançar as copas mais altas, que chegavam a 10 metros de altura, a equipe precisou adaptar o método tradicional. Em vez de usar escadas no meio do trânsito, os pesquisadores utilizaram hastes telescópicas ajustáveis — semelhantes às hastes compridas utilizadas na limpeza de piscinas — para chacoalhar os galhos e recolher as amostras com segurança.

Com o auxílio de uma especialista em botânica, todas as 1. 381 árvores foram catalogadas junto com suas coordenadas geográficas. Em seguida, esses dados foram cruzados com imagens de satélite por classificação supervisionada para medir a taxa de asfalto e concreto.

A análise revelou que quanto maior a presença de superfícies impermeáveis, menor é a abundância de plantas locais. Essa relação direta indica que o avanço do asfalto limita o desenvolvimento das espécies da Caatinga e reforça a hipótese de que os gestores públicos priorizam o plantio de árvores exóticas para compor canteiros e grandes avenidas.

Eduardo Vinícius S. Oliveira, professor do departamento de Ecologia da UFS e pesquisador da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec-SE), avaliou que o estudo traz um diagnóstico quantitativo rigoroso sobre um problema sério no Semiárido: a homogeneização da flora urbana promovida por espécies exóticas. “Concordo com as conclusões dos autores de que a hiperdominância do nim e o avanço da impermeabilização reduzem drasticamente o potencial do ecossistema urbano de abrigar a biodiversidade da Caatinga”, afirma Oliveira, que atua nas áreas de Ecologia Vegetal e Conservação da Biodiversidade e não participou da pesquisa.

Ao analisar os riscos ecológicos da permanência do nim nas calçadas do Semiárido, ele alerta que o impacto da espécie vai além da estética urbana: “A planta apresenta compostos com atividade alelopática, ou seja, substâncias que podem interferir na germinação e no crescimento de árvores nativas. ”

O pesquisador ressalta ainda que a manutenção do nim nas ruas ameaça a preservação da própria Caatinga nos arredores das cidades, já que uma vez estabelecidas nos ambientes, as árvores de nim podem competir com espécies nativas por recursos, modificar a composição das comunidades, reduzir a diversidade biológica e alterar processos e funções dos ecossistemas.

Citação

Viana-Junior, A. B. , J. C. Pena, F. K. D. S. Monteiro, et al. 2026. “ Hyperdominance of Exotic Invasive Trees in Street Afforestation of Semi-Arid Brazilian Cities. ” Biotropica 58, no. 4: e70244. https://doi. org/10. 1111/btp. 70244.

Imagem do banner: Coleta de amostras de árvores de cidades do interior da Paraíba. Foto: Arleu Barbosa Viana Junior.

Compartilhe

Últimas notícias

Segundo cérebro: por que a sua ansiedade e o seu humor moram no intestino
Estudo inédito mapeou 1. 381 árvores ao longo de vias públicas em dez municípios do semiárido paraibano e revelou que quase 80% dos indivíduo
https://www.portalbiss.com.br/noticia/4794/arvore-exotica-indiana-domina-as-ruas-de-cidades-do-semiarido-paraibano