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Nova biografia de stephen hawking mostra "lado obscuro" do gênio

Primeira biografia autorizada do físico reúne documentos inéditos e revisita não apenas suas contribuições à compreensão dos buracos
Portal Biss
18 de setembro de 2026 às 14:58hs
Nova biografia de stephen hawking mostra "lado obscuro" do gênio
A imagem pública de Stephen Hawking como um dos maiores gênios da ciência contemporânea ganha novos contornos em sua primeira biografia autorizada. Em Hawking: his life and work (2026), o escritor Graham Farmelo reúne documentos inéditos da família e de outras fontes para reconstruir a trajetória do físico britânico e, ao mesmo tempo, expor características de sua personalidade que durante décadas foram minimizadas diante de sua deficiência e de sua projeção internacional.

Hawking morreu em março de 2018, aos 76 anos, depois de décadas convivendo com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença neurodegenerativa que compromete progressivamente os músculos e os movimentos. Diagnosticado ainda jovem e inicialmente informado de que provavelmente viveria menos de dez anos, ele contrariou as expectativas médicas e construiu uma carreira científica de enorme impacto.

Essa mesma trajetória, porém, é apresentada agora sob uma perspectiva menos reverente. Nessa biografia, relatos de familiares, colegas e alunos são recuperados de forma a evidenciar o perfil egocêntrico, competitivo e controlador de Hawking, que também era conhecido entre seus pares pela pouca disposição a reconhecer trabalhos alheios.

A ciência que transformou Hawking em celebridade

Antes de se tornar uma personalidade mundial, Hawking construiu sua reputação a partir de trabalhos fundamentais sobre a origem e o funcionamento do Universo. Em Cambridge, no início dos anos 1960, ele se aproximou das pesquisas do físico Roger Penrose sobre o colapso gravitacional de estrelas e os buracos negros.

Tomando essas ideias como base, Hawking percebeu que os processos associados ao colapso de estrelas poderiam ser relacionados, em sentido inverso, à origem do universo. Esse trabalho resultou, em 1970, em um artigo com Penrose sobre as condições que levam à chamada singularidade (conceito usado para descrever uma situação extrema em que as grandezas físicas previstas pelas teorias convencionais deixam de ser aplicáveis).

Quatro anos depois, Hawking apresentou sua contribuição mais conhecida: a hipótese de que os buracos negros não são completamente escuros. De acordo com seus cálculos, efeitos previstos pela mecânica quântica — a área da física que descreve o comportamento da matéria e da energia em escalas extremamente pequenas — fariam com que esses objetos emitisse uma forma de radiação.

O fenômeno ficou conhecido como "radiação Hawking" e implica que, em determinadas condições, um buraco negro poderia perder energia ao longo do tempo e eventualmente sumir. Sua descoberta representou uma combinação incomum de diferentes áreas da física, envolvendo gravidade, mecânica quântica, termodinâmica e teoria da informação.

Reconhecimento de outros cientistas

Um dos pontos mais delicados levantados pela biografia é a maneira como Hawking reconhecia ou deixava de reconhecer as contribuições de outros pesquisadores. Essa característica apareceu desde os primeiros trabalhos do físico, inclusive em relação a Roger Penrose.

O caso mais controverso, no entanto, envolve o físico Jacob Bekenstein, que propôs uma relação entre a área de um buraco negro e sua entropia (grandeza usada pela física para medir o grau de desordem ou o número de configurações possíveis de um sistema). Hawking inicialmente rejeitou a proposta de Bekenstein, mas posteriormente chegou a uma conclusão compatível com parte da ideia. De acordo com o relato reproduzido pelo jornal, em vez de reconhecer integralmente a contribuição do colega, teria apresentado o resultado de forma que acabasse associado principalmente ao próprio nome.

Farmelo também relata em sua obra episódios envolvendo estudantes. Embora pudesse ser atencioso e gentil com seus orientandos, Hawking teria tentado retirar de Cambridge um aluno cujo trabalho contrariava uma de suas conjecturas sobre buracos negros.

Para alguns colegas, ao longo dos anos, as palestras de Hawking se tornaram excessivamente centradas em sua própria trajetória. “Totalmente sobre ele”, disseram alguns, segundo o biógrafo, que também relata que outros pesquisadores evitavam críticas públicas por receio de parecerem cruéis com uma pessoa com deficiência.

O homem por trás do cientista

É nesse ponto que a nova biografia se distancia de relatos mais tradicionais sobre Hawking. Embora sua família tenha autorizado o projeto, Farmelo não evita inteiramente os episódios capazes de prejudicar a imagem do físico.

No texto, estão presentes passagens em que seu pai, Frank, teria se preocupado com o comportamento do filho ainda adolescente, enquanto sua irmã, Mary, o descreve como “uma das pessoas mais egocêntricas que já conheci”. O filho mais novo também contou ao biógrafo que o pai podia ser “extremamente competitivo” e não gostava de perder nem mesmo em jogos de tabuleiro.

Outros relatos apontam para relações familiares marcadas por distanciamento e controle. A mãe, Isobel, reclamava que Hawking ignorava pessoas quando lhe convinha. Seu irmão adotivo, Edward, por exemplo, chegou a relatar nunca ter se sentido realmente próximo do físico.

O casamento com Jane Hawking também aparece sob uma perspectiva mais complexa. A esposa precisou conciliar a vida familiar com as necessidades de alguém cuja doença comprometia progressivamente sua mobilidade e comunicação. Hawking ridicularizava de maneira recorrente as crenças religiosas de Jane, enquanto suas exigências e a pouca atenção aos interesses dela contribuíam para o isolamento da esposa.

O livro de Farmelo não é a primeira obra a questionar a imagem pública de Hawking. Em Hawking Hawking (2021), o autor Charles Seife já examinava de forma mais crítica a construção da fama do físico. A novidade da biografia de Farmelo está, portanto, menos em revelar que o físico tinha defeitos e mais em incorporá-los ao relato de sua trajetória.

Fonte: revistagalileu. globo. com

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