
Elvis vinha de anos dedicados principalmente ao cinema e era tratado por parte do público como uma figura do passado. No programa, porém, voltou a aparecer cercado por músicos, vestido de couro e cantando com a intensidade de quem precisava recuperar o próprio lugar.
"Provavelmente foi uma vantagem eu ter somente oito anos", escreveu Bono, conforme publicado na Far Out. "Eu ainda não possuía capacidade crítica para dividir os diferentes Elvis em categorias ou organizar todas aquelas contradições. "
O vocalista do U2 ficou especialmente impressionado com os trechos em que Presley aparecia numa formação enxuta, próximo dos músicos e do público. Não havia necessidade de esconder as canções sob uma grande produção: voz, guitarra, baixo e bateria carregavam tudo.
Praticamente tudo o que quero de guitarra, baixo e bateria estava presente", afirmou Bono. Ele descreveu Elvis como "um artista incomodado pela distância entre ele e a plateia" e dono de "uma personalidade que transformava a lente ampla da fama num prisma".
Essa proximidade era em parte uma construção do programa, mas funcionava porque Presley parecia mais à vontade quando retornava às bases de sua música. Sentado entre antigos companheiros, tocando violão e reagindo à audiência, ele recuperava algo da energia das primeiras gravações feitas para a Sun Records.
Bono se tornaria conhecido por espetáculos gigantescos, telões e palcos construídos para estádios. Ainda assim, sempre tratou a canção como o ponto de partida. Uma música deveria sobreviver apenas com sua voz e a guitarra de The Edge antes de receber qualquer outra camada.
O especial de 1968 mostrou que grandiosidade e simplicidade não precisavam ser opostas. Elvis continuava maior do que a vida, mas parecia ao mesmo tempo estar cantando entre amigos. Para o menino que anos depois lideraria o U2, ali já estava tudo o que uma banda de rock precisava oferecer.
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