
O trio já tinha músicos experientes, uma sonoridade própria e canções que destoavam da turma punk ao redor, mas isso não significava que as coisas estavam deslanchando automaticamente. Foi aí que Sting, com aquele misto de esperteza e cara de pau que o rock sempre soube aproveitar, decidiu ajudar a realidade com uma pequena mentira.
A frase saiu da boca dele mesmo e depois reapareceu em canais oficiais da banda: "Na Inglaterra ninguém queria nos ouvir, então decidimos aplicar um golpe e ir para a América", disse Sting ao lembrar daquele momento. Segundo ele, o trio voltou para casa vendendo a versão de que já tinha conquistado os Estados Unidos, o que não correspondia exatamente ao que estava acontecendo. A ideia era simples: se os americanos estavam supostamente prestando atenção, talvez os ingleses resolvessem prestar também.
O curioso é que o truque não veio de uma banda incompetente tentando parecer maior do que era. Conforme relembra a Far Out, o Police já tinha material forte nas mãos e uma identidade incomum para a época. "Roxanne", por exemplo, não soava como quase nada do que circulava naquele circuito em 1978, e o grupo estava longe de ser só mais uma banda tentando pegar carona no punk. O problema era outro: fazer esse som chamar atenção no meio de uma cena lotada de novidade, pose e competição.
Sting entendeu cedo uma coisa que muita banda só percebe depois de apanhar bastante: tocar bem não basta, é preciso saber vender a história. Então o Police fez aquela primeira passagem pelos EUA, tocou em lugares pequenos, criou um pouco de barulho e voltou à Inglaterra com a narrativa inflada de que a América já estava rendida. Não estava. Mas a conversa funcionou como empurrão simbólico num momento em que qualquer impulso contava.
O resto veio com música de verdade. Em pouco tempo, o grupo emplacaria faixas como "Message in a Bottle" e deixaria de precisar desse tipo de artifício para convencer alguém. Mas a lembrança permanece boa justamente por mostrar que, antes de virarem gigantes, Sting, Andy Summers e Stewart Copeland também recorreram a um expediente velho como o próprio show business: fingir por um instante que a porta já tinha sido aberta, só para ver se alguém resolvia escancará-la de vez.